Há um Propósito em minha vida. Minha vida tem um O avesso da Nostalgia _Minha infância. 14
A minha infância e o meu passado não carregam uma história bonita . Escrever a crônica da minha vida é um processo doloroso, mas de muita honestidade . Aprendi ao longo dos meus sessenta anos que não preciso romantizar o que doeu . Afinal ,eu preciso validar o meu sentimento, transformando a desilusão e a primeira década de decepção em uma narrativa sem máscaras.
O Avesso da Nostalgia _Minha Infância, é o décimo quarto Capítulo de narrativas que fazem parte do meu acervo pessoal. Muitos insistem que a infância é a fase da Proteção durante : as brincadeiras, o calor afetivo, os cuidados e responsabilidades das famílias. E a escola? Também teimam em afirmar que é o lugar dos laços sociais , onde os dias são leves e divertidos. Mas ,eu, não encontrei nada disso. Para mim, nunca funcionou como deveria, nem a família e nem a escola. Não sei o que é encantamento na infância.
Se eu pudesse acelerar de volta ao passado, e depois partir rapidamente, voltando ao presente, a primeira década de minha vida, eu olharia pelo retrovisor uma única vez.
A minha família, nunca foi o meu porto seguro .
A escola, um protocolo frio, servia como o espaço de deslocamento,e eu nem bem chegava, queria retornar para casa.
E as brincadeiras nas casas da vizinhança? Sem o gosto da pureza; eu não demorava, recolhia minhas tralhas, nas tentativas vazias para aguardar quem pudesse cuidar de mim,em casa . A primeira década moldada por decepções , silêncio , tristezas e barulhos na alma. O mais difícil era a expectativa dos momentos que tinham tudo para divertir. Os marcos culturais datados de momentos de "felicidades". Até neles, o desencanto sentava à mesa, cobrava seu preço ,e era muito caro ,por uma alegria que nunca chegava por inteiro. Carregar uma mala que ninguém ajudou a carregar, mas exige que sejamos gratos pelo ontem, é demais. A força em olhar para a própria história e ter a coragem de dizer: não foi boa, não me encantou e doeu, me faz compreender que eu apenas sobrevivi. Que eu saí viva.
Não estou procurando o que nunca existiu no passado, estou tentando entender a minha teimosia de continuar caminhando, apesar dele.
Visão da Proteção Antinatalismo
Essa é a perspectiva com a qual me identifico. Ela transforma o que a sociedade chama de "pessimismo" em um escudo de proteção.
A Assimetria do Sofrimento popularizada pelo filósofo contemporâneo David Benatar defende que a ausência de dor é algo universalmente bom, enquanto a ausência de prazer só é ruim se houver alguém vivo para lamentar essa falta. Como os filhos que não nasceram não existem, eles não sofrem por não terem prazeres, mas estão 100% protegidos de todas as dores do mundo.
David Benatar afirma que esse é o ápice do amor parental , que ocorre antes mesmo da concepção. Segundo o autor, essa decisão altruísta de absorver a solidão ou a pressão social de não ter filhos garante que uma nova consciência nunca precise experimentar o luto, a violência, a decadência física ou a angústia existencial .
Dessa forma,nasce a Ética do Consentimento, e configura-se como um princípio de precaução. Se você não pode garantir que o mundo será um lugar seguro e feliz, o ato mais coerente é não arriscar a vida de outra pessoa.
Mas, apesar de defender a máxima da não existência. eu experimentei a existência, trouxe ao mundo duas vidas. Apesar de ter no campo das ideias, o argumento da proteção , na prática da vida, meus movimentos pelo desejo profundo de encontrar um porto seguro, um sentido ou uma âncora para a felicidade, foram mais fortes.
Agradeço a David Benatar, o filósofo sul-africano contemporâneo que escreveu o livro mais famoso sobre o tema: "Better Never to Have Been: The Harm of Coming into Existence" (Melhor Nunca Ter Existido: O Dano de Vir à Existência). Apresento o autor como "fundamentação", para minhas inquietações. O seu argumento puramente lógico tenta provar por que a não existência é sempre melhor.Mas eu quis experimentar a existência,na maior teimosia da minha vida. Meus filhos não mereciam essa experiência.
Para Benatar, a não existência ganha de lavada na lógica pura. Criar uma vida, para ele, é sempre um risco ético enorme que corremos usando o destino de outra. Como um lar disfuncional como foi o meu, poderia trazer a existência alguém capaz de ser feliz e trazer a vida dos filhos às experiências de felicidade?
Leah Ribeiro Pinheiro
Enviado por Leah Ribeiro Pinheiro em 23/08/2026
Alterado em 30/08/2026